sábado, 23 de maio de 2015
Ah, poeta...
Nada tão docemente amargo quanto o coração de um poeta,
nem tão caro quanto seu espírito tangível!
Desprotegido e nú, vagueia seu ser entre horrores e maravilhas.
A caneta lhe vale o reinado e por ela grava cicatrizes no papel dos corações humanos
Tateia na escuridão do próprio cérebro e com incrível agilidade desencrava peças do inconsciente.
À luz de sua razão, em seguida, transborda nos quatro cantos do universo.
Nada tão calmo e vazio quanto um poeta transbordado,
nem tão ansioso quanto um poeta calmo e vazio!
Retorna no seu mergulho negro até que esgote o veio, sem satisfazer-se...
Esgotando um e mais outro procura preencher-se.
Novamente, vagueia e observa...
Expõe-se nú e desprotegido a horrores e maravilhas e deixa marcar seu espírito pela caneta da vida.
Abdica seu reino em favor de uma causa suicida,
mas quando volta vitorioso é coroado de novas pedras,
tornando a garimpar sua escuridão!
Nada tão obstinado quanto um poeta antes do mergulho,
nem tão forte e vivo quanto um poeta obstinado!
Porém, de tantos que são os horrores,
de tão sensível às maravilhas que é o espírito,
de tão exausto o corpo dos mergulhos;
nada é tão velho quanto um poeta cansado, nem tão triste quanto um poeta morto!
Fernanda Bega
escrito em 15 de julho de 1980- às 15hs- para Vinícius de Moraes que acabara de falecer.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Versinhos
Um ninho de tico-tico
Um ninho de tico-ticos feito com arte e primor
Achei no galho mais rico da minha roseira em flor.
Entre as flores, encoberto, ninguém sabe que ele existe
É preciso olhar de perto para que a gente o aviste
Lá no fundo somente três ovinhos, nada mais
O ninho tão fofo e quente que os três ovos estavam iguais!
Mas tive muito cuidado não toquei com meus dedinhos
Mamãe disse que é sagrado um ninho de passarinhos.
De: Maria Zalina Rolim (1869-1961)
Ensinado e recitado sempre por minha mãe...
Um ninho de tico-ticos feito com arte e primor
Achei no galho mais rico da minha roseira em flor.
Entre as flores, encoberto, ninguém sabe que ele existe
É preciso olhar de perto para que a gente o aviste
Lá no fundo somente três ovinhos, nada mais
O ninho tão fofo e quente que os três ovos estavam iguais!
Mas tive muito cuidado não toquei com meus dedinhos
Mamãe disse que é sagrado um ninho de passarinhos.
De: Maria Zalina Rolim (1869-1961)
Ensinado e recitado sempre por minha mãe...
sábado, 17 de janeiro de 2015
DONA LENY, 22 DE FEVEREIRO DE 1929.
Aprendi a recitar poesias com a minha mãe. No começo eram pequenos versinhos da tradição oral que todo mundo conhece, como:
Sou pequenininha de pernas grossas
Vestidinho curto papai não gosta.
Ou:
Sou pequenininha do tamanho de um botão
Levo papai no bolso e a mamãe no coração.
Todas as brincadeiras que ela nos ensinava tinham músicas ou versinhos e isso nos estimulava mais e mais. Rei, capitão, soldado, ladrão, moço bonito do meu coração!
Minha mãe era uma mulher alegre, bonita e sábia. Pouco estudo, muita intuição. Sempre ouviu muito rádio com a gente, apesar até de eu ser jovem para isso, lembro-me de ter escutado novela no rádio (isso porque tenho uma memória de elefante mesmo!).
Caridade, aprendi com ela também. Minha mãe nunca jogava comida fora, fazia pacotes e me mandava levar para os vizinhos mais necessitados, isso sem contar os pratos que servia na porta mesmo para os pedintes. Vou ser sincera que eu reclamava de ir levar as coisas...
Tinha uma casa muito pobre, cheia de crianças quase sempre peladinhas, um lugar feio e sujo. Claro a miséria é feia. Eu reclamava, mas ia. Uma vez, a casa desta família encheu d’água e meu pai trouxe todo mundo para nossa casa, o casal e cinco filhos. Mamãe improvisou um cômodo para eles na garagem de nossa casa e dividimos e multiplicamos as refeições até que se ajeitasse a casinha deles de novo. Outra vez, uma vizinha operou as varizes e não podia levantar da cama por uma semana e minha mãe, que não exigia que eu fizesse nenhum serviço doméstico em casa, me escalou a semana toda para ir lavar a louça do almoço da vizinha e ajudar a olhar uma filhinha pequena que ela tinha. Coisas que eu, adolescente de 13, 14 anos, não compreendia. Mas fui e fiz e tive uma incrível sensação de “utilidade”, o prazer de servir e fazer o bem por menor que ele fosse.
Sinto-me compelida a falar da vida da Dona Leny, de como ela foi sempre, principalmente porque a idade já forjou seus efeitos na personalidade dela... Pessoas que não a conheceram não podem imaginar como ela foi, o que fez nesta vida ( e também os que têm memória curta). É uma questão de justiça e gratidão falar de tudo que a minha memória guardou da nossa infância.
Minha mãe, por ter trabalhado em farmácia quando muito menina e aprendido muitas coisas sobre medicamentos, dosagens e seus preparos, ( naquela época eram mais medicamentos de manipulação do que industrializados), ela sabia aplicar injeções e, quando veio morar em São Paulo, vizinhos batiam no nosso portão a qualquer hora do dia pedindo que lhes aplicasse algum medicamento solicitado por seus médicos. Lembro-me dela colocando no fogo para ferver e desinfetar o seu Kit de seringa e agulha (não existia seringa descartável nos anos 60).
Nunca se negava a acudir ninguém por mais que estivesse ocupada! Também a procuravam para furar a orelhinha de bebês recém nascidos e dar o primeiro banho em vários bebês que nasciam na vizinhança e, por isso mesmo, cresci amando as crianças, os bebês. Claro que o primeiro banho dos meus filhos também foi privilégio dela.
Como não havia nem igreja na Vila Gustavo, quando ela se mudou para lá, mamãe teve a iniciativa de ensinar a catequese para as crianças na idade certa. Meu pai, então, arrumou uns bancos de madeira, colocou-os numa área coberta no fundo do nosso quintal e lá minha mãe formou várias turmas para a Primeira Eucaristia. Eu, ainda pequena demais para o catecismo, com 4 ou 5 anos, acompanhava as aulas e sabia de cor os 10 mandamentos, as orações, etc. Fiz anos de catecismo antes de chegar a minha idade certa.
Mamãe se divertia muito com a gente mesmo sem todos os brinquedos que se tem hoje, até mesmo sem a televisão em casa. E quando acabava a luz (o que acontecia com muita freqüência), a gente se reunia ao redor da chama da vela e fazíamos brincadeiras e cantávamos muito, muitas cantigas de roda e infantis até cansarmos. Aprendi a cantar a canção da velha a fiar, em que você vai enumerando e acrescentando vários novos personagens que incomodam a velha e no final tem que lembrar de todos, sempre com o último incluído. Vocês conhecem, né?
Cantávamos também aquela musiquinha da loja do mestre André, alguém conhece? E do gato na tuba. E recitávamos o poema sobre o gatinho chamado Cetim... Essa era a minha mãe, essa é a minha mãe que permanece cheia de idéias naquela cabecinha branca, já cansada, já esquecida.
Quem conhece os sete filhos que ela criou não pode imaginar que ela tenha sido amarga ou triste a vida inteira.
Meus irmãos são espirituosos, inteligentes, bem humorados e todos têm caráter e personalidade. Formaram-se e tornaram-se bons, excelentes pais e mães, maridos e esposas. Minha mãe tem toda essa bagagem vivendo por aí e fazendo este mundo um lugar melhor porque é disso que se trata viver bem e ser BOM. Viver bem é deixar o mundo melhor quando partirmos e isso não é o mais comum de acontecer. O mais comum é o que vemos a nossa volta, pessoas que vão se fechando numa concha de egoísmo, olhando para o próprio umbigo, para o próprio enriquecimento a qualquer custo e que deixam rastros de desafetos pela vida afora. Poucos terão as mãos cheias com tamanho tesouro ao reencontrar com o Criador, isso eu posso testemunhar.
... continua.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Simuladores podem nos ajudar a ajudar
No Japão fizeram um simulador de gravidez para os homens poderem experimentar as sensações e as mudanças que as mulheres vivem nesta fase. Achei útil.
Deveriam inventar também um simulador da velhice para que os jovens pudessem experimentá-la... Vocês imaginam como é envelhecer? Já pararam para pensar a respeito?
Embora todos estejamos envelhecendo desde o primeiro dia de nossas vidas, pouco pensamos a respeito a não ser quando sentimos os primeiros sinais em nosso próprio organismo. Sabe quando você joga futebol de campo com os amigos e depois sente aquelas dores pelo corpo? Então, envelhecer é sentir dores todo o tempo.
Sabe quando você está gripado e não tem disposição para suas atividades mais básicas do dia? Então, envelhecer é como estar sempre gripado.
E quando você arranca a tampa do joelho num tombo e na hora de dobrá-lo, dói pra caramba?
Então, seu corpo não responde às suas vontades, nem necessidades. Sua memória falha. Você já não escuta bem e nem consegue acompanhar as conversas, antes tão agradáveis. Televisão também é um monte de caras desconhecidas falando sem parar coisas que você não compreende. Estar sozinho é muito ruim, mas com muitas pessoas você também fica atordoado e cansado porque isso exige demais de seus sentidos já debilitados. Fome, você até sente mas não quer mais preparar o próprio alimento e acaba comendo mal e de qualquer maneira. Está exausto para isso também.
Quando as pessoas têm um bebê, elas sabem que eles se cansam de hiper exposição, cansam quando têm muitas visitas, em festas... As pessoas falam que pegam “quebranto”, na verdade o idoso também se cansa de exercitar seus sentidos. Cansa de tentar ouvir e entender, cansa de barulhos, de movimento, cansa ao procurar gravar na memória os fatos mais corriqueiros do dia, cansa de estar “velho”, mas ninguém entende isso. Ninguém fala: vou levá-lo um pouco para o quarto, deixá-lo descansar.
Sabe a tristeza de perder um amigo? Um amor? Pois é, os idosos já perderam muitos amigos, senão todos. Muitos amores, senão todos. A tristeza é parceira da velhice e esta história de melhor idade é balela da mídia... dos médicos, sei lá, balela carregada de boa intenção mas que de nada serve se os familiares e amigos dos idosos não souberem realmente o que é “envelhecer”. Envelhecer é ter uma viagem marcada para um dia cada vez mais próximo, uma viagem que não se deseja fazer, que não se decidiu fazer mas que sabe que está chegando. Envelhecer é estar indo embora devagarinho e querendo que as pessoas digam: - Não se vá! É tão bom tê-lo (a) conosco!
Eu tenho uma mãezinha idosa, algumas tias e até alguns primos já, mas mais que isso, sei que daqui a pouco eu mesma e meus irmãos já estaremos nesta fase... A terceira idade está logo ali na próxima curva de nossas vidas e o tempo de aprender sobre ela é agora.
O tempo de aprender sobre tudo é agora. Agora, enquanto temos saúde e lucidez. Este é o tempo de sermos solidários e de ensinarmos aos nossos filhos e netos como cuidar dos mais velhos, como perdoá-los e como entendê-los. Mas aprender exige humildade, exige consciência de que não sabemos de nada.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Vale a pena!
A vida tem me mostrado que, apesar de tudo, vale a pena seguir semeando gentilezas, carinhos, elogios.
Tem valido a pena olhar devagar e cuidadosamente para cada pessoa que se aproxima de nossas vidas. Respeitar as diferenças, as limitações de cada um, os defeitos e o tempo, porque cada pessoa ao seu tempo há de aprender. Ainda que com algumas decepções dolorosas, vale a pena sim.
No geral, as pessoas sabem ser gratas, mas mais que isso, é o próprio Universo que sabe ser grato e trazer de volta para nós, como quando lançamos um bumerangue, todos os carinhos, as gentilezas, os elogios e o respeito.
Tenho muito claro isso no dia a dia aqui da empresa, onde todos que chegaram e chegam para trabalhar conosco são pessoas excelentes. Sai um, entra outro e as pessoas nos surpreendem sempre favoravelmente com suas habilidades, simpatia, honestidade e caráter. Agradeço ao Universo, às pessoas incríveis que ele atraiu para minha vida e a minha teimosia em não desistir das minhas crenças. Acredito que o bem semeado retorna e se multiplica. Acredito que o respeito, a educação e a gentileza abrem portas. Acredito que “não revidar” agressões verbais ou atitudes grosseiras, antes de ser apenas engolir sapo, pode ser também a oportunidade do outro repensar e aprender. E assim vou colecionando preciosos momentos e conversas e carinhos que pouca gente pode dizer que já experimentou.
É claro que nem assim fico livre de perder pessoas ou das pessoas me perderem, parece ser parte da roda viva... E talvez seja a lição que vou ter que aprender ainda: sofrer menos com as rejeições.
Onde guardares o teu tesouro, ali estará o teu coração. ( Mateus 6,21)
Guardo no meu coração todos vocês que me enchem de alegria por fazerem parte da minha vida como meus amigos e como minha família. Agradeço por cada vez que um de vocês engoliu um “sapinho” que seja por minha causa e quero fazer valer a pena mais e mais. Feliz Natal, meus queridos. Para 2015, desejo que os sapos sejam menores e as alegrias muito maiores.
Assinar:
Postagens (Atom)

